“A atribuição da bolsa ao longo dos anos foi (…)
uma renovação da confiança que depositaram em mim”

Entrevista a Joel Lopes Reis, bolseiro da FRP

Conversámos com Joel Lopes Reis bolseiro da Fundação Rotária Portuguesa (FRP) através do Rotary Club da Feira, desde o ano lectivo 2009/2010. No presente ano lectivo e face ao seu excelente percurso académico, e também por reunir as condições necessárias, a FRP inscreveu-o como merecedor da Bolsa de Estudo Pedro Ecoffet Taborda. É sobre este tema, o seu percurso como estudante, as dificuldades do dia-a-dia e os projectos para o futuro falámos com este futuro médico, que está completar o último ano de Medicina na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto.

Notícias (N.) – Que dificuldades sentiu na passagem da Escola Secundária Coelho e Castro, em Fiães para a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto?
Joel Lopes Reis (J.L.R.) – A transição foi um momento de muitas descobertas. Conhecia minimamente a cidade e o Hospital de S. João onde se insere a faculdade. Os primeiros dias foram de completa desorientação, não conhecia ninguém naquela faculdade, mas não tardei muito a estabelecer alguns contactos (alguns deles amigos até hoje) e a descobrir o local das aulas e onde buscar os apontamentos. Na altura a faculdade adoptava um método curioso de organizar as turmas: agrupava os alunos consoante os códigos postais de onde eram naturais. Isso fez com que eu ficasse com alguns conterrâneos de outras escolas secundárias da região e facilitou a minha integração. A primeira aula de anatomia foi o verdadeiro choque. O anfiteatro Norte cheio, como nunca mais o voltei a ver, felizmente. Seríamos certamente mais de 400 alunos entre “caloiros” e mais velhos. A bibliografia recomendada e a velocidade a que era debitada matéria era simplesmente algo de surreal para alguém acabado de chegar à faculdade. Quem lá estudou rever-se-á certamente nestas palavras. Tive de reajustar os meus métodos de estudo porque é um curso que se baseia muito na capacidade de memorização. Mas as dificuldades servem para ser ultrapassadas e ao fim da primeira época de exames tive a certeza que merecia lá estar e que a minha passagem pelo secundário me tinha preparado adequadamente para fazer face às adversidades.
N. – Tem noção de que acabar o Ensino Secundário com média de 19,1 valores o colocou num grupo de estudantes de excelência?
J.L.R. – Mais do que me colocar num grupo de excelência, a média que obtive reflecte a excelência das pessoas com as quais me cruzei. Tive a sorte de ter um ambiente espectacular e muito propício naquela escola para que os resultados surgissem, um ambiente quase familiar. Os professores sempre alimentaram a minha curiosidade e sede de conhecimento e estavam sempre disponíveis. Os meus amigos foram fundamentais pelas dúvidas que me colocavam e que me ajudavam a sedimentar os meus conhecimentos, mas sobretudo pela alegria que partilhavam com as minhas conquistas. É mais fácil vencer a corrida quando se tem uma boa equipa. O meu objectivo foi dar sempre o meu melhor para que pudesse ter um leque alargado de escolhas no final do secundário, e os resultados foram surgindo com naturalidade.
N. – Como descobriu a sua vocação para a Medicina?
J.L.R. – Pergunta difícil. Os meus pais dizem que desde pequeno eu queria ser médico. Eu sempre quis ser muita coisa, ainda hoje sou assim. Adoro botânica, gosto de engenharia, de geologia, e tantas outras áreas. A escolha não foi fácil. Contudo há algo que sempre me fascinou muito, as pessoas. E se há coisa que me deixa feliz é comunicar. A vocação para Medicina foi crescendo desta combinação do desejo pelo conhecimento, de comunicar, sendo que o silêncio é por vezes a melhor estratégia de conversação, e da vontade de contribuir para uma sociedade melhor.
N. – Estudar implica sacrifícios. Onde é que um jovem estudante com as suas qualidades académicas arranja forças para durante quase 4 anos, do tempo do seu curso de 6 anos, fazer diariamente os 30 quilómetros (ida e volta) da sua casa à Universidade?
J.L.R. – Pode parecer estranho, mas tenho saudades desses momentos. Foi nos transportes públicos que fiz alguns dos meus grandes amigos. Além de mais o tempo que despendia na viagem era por vezes o tempo que tirava para mim. Tenho saudades de atravessar a ponte D. Luís e ser bafejado pela magnífica paisagem, todos os dias diferente, todos os dias bela. Aproveitar os 10 minutos de sol no jardim do morro enquanto esperava pelo autocarro ou passear pelas ruas da baixa do Porto. Aproveitava muitas vezes para ler ou preparar as aulas. É certo que por vezes, talvez mais do que aquelas que esta visão nostálgica me permite lembrar, me custava acordar bem cedo, por vezes às 6h00. Mas, isto também me ajudava a ser mais organizado com o meu tempo e felizmente as avaliações concentravam-se sobretudo na época de exames de maneira que não tinha de ir tão frequentemente à faculdade e não despendia tanto tempo em viagens.
N. – É bolseiro da Fundação Rotária Portuguesa (FRP) através do Rotary Club da Feira, desde o ano lectivo 2009/2010. Como chegou ao seu conhecimento a possibilidade de usufruir desta bolsa de estudo?
J.L.R. – Na altura o meu pai encontrava-se desempregado desde o início do meu secundário e foi através da directora da escola a Dr.ª Anabela Pereira, à qual agradeço publicamente por todos os esforço que tomou, que soube da possibilidade desta bolsa. Descobri posteriormente que um dos representantes do clube rotário da Feira era meu conterrâneo, o Dr. Sérgio, ao qual agradeço pela imensa disponibilidade, e entrei em contacto com ele e deu início ao processo de candidatura.
N. – Neste ano lectivo 2014/2015, e devido a reunir as condições necessárias, foi-lhe atribuído através da FRP a possibilidade de usufruir de uma Bolsa de Estudo Pedro Ecoffet Taborda. Sente-se de facto um aluno especial?
J.L.R. – É muito bom ser-se reconhecido pelo trabalho que se realizou ao longo destes anos. O ego e alma também precisam de alimento. Sei que sempre trabalhei muito, por mim e por todos aqueles, sobretudo os meus pais e a minha irmã, que tantas vezes fizeram esforços acima das suas capacidades para que nunca me faltasse nada e o meu percurso seguisse sem percalços. Por isso de facto sinto-me muito especial por tê-los ao meu lado. Sem eles este prémio não seria possível. Este prémio é também um reconhecimento das suas capacidades.
N. – De que forma tem contribuído para a sua formação o apoio da FRP?
J.L.R. – O apoio da FRP foi fundamental nos meus primeiros anos porque me permitiu ter alguma independência financeira que possibilitou comprar o material necessário, participar nas diversas actividades, mas sobretudo que a frequência do ensino superior não representasse uma sobrecarga para o orçamento familiar. A atribuição da bolsa ao longo dos anos foi também uma renovação da confiança que depositaram em mim e um estímulo para que eu continuasse a ser merecedor desses votos.
N. – Agora que está no 6.º ano de Medicina e numa altura em que terá de escolher a especialização, que área vai abraçar?
J.L.R. – Segunda pergunta difícil. A Medicina é uma área muito abrangente. Sei que não me agradam as especialidades cirúrgicas. O bloco operatório não é o local que mais me fascina. A Medicina interna e Medicina geral familiar são áreas que são especiais para mim. A primeira pela diversidade de patologias que aborda. A segunda pela proximidade com as populações na qual se insere e pela globalidade de situações com que se depara. Espero que o ano que me espera enquanto interno do ano comum me ajude a escolher.
N. – Projectos para o futuro?
J.L.R. – Já plantei muitas árvores. Falta-me escrever o livro e ter o filho. De imediato os meus objectivos passam por terminar o curso e posteriormente a especialidade. Gostaria muito de poder trabalhar no estrangeiro por algum tempo, ver outras culturas e outras formas de prestar cuidados de saúde. Gostaria também de me envolver num projecto de voluntariado. Acima de tudo gostaria de fazer alguma diferença, espero que positiva, na sociedade da qual faço parte.

 

Num minuto…

Nome: Joel Lopes dos Reis
Idade:23
Natural: Lobão
Reside: Lobão
Hobby: Caminhadas e cuidar das minhas plantas
Livro preferido: Novos contos da montanha – Miguel Torga; Ensaio sobre a cegueira
A minha música é: Depende do meu estado de espirito
Filme que mais gostei: Elysium
O meu prato preferido é: Polvo à Lagareiro
Praia: as ilhas cies foram até hoje as praias mais bonitas que já visitei. Normalmente frequento a praia de Miramar.
País: Tenho um fascínio pelo sul de França e norte de Itália.
Férias em: um local tranquilo, sem multidões, rodeado de natureza, seja na montanha, de preferência com um curso de água, seja junto ao mar. Adoro um bom pôr-do-sol ou um céu estrelado que só estes locais, a maioria das vezes longe dos grandes centros urbanos, permitem e aproveitar para colocar a leitura em dia.
Viagem que gostava de fazer: Um interrail pela Europa

 

À margem…

“Não deixes que o lugar de onde vens te impeça de ir para onde queres”

No final da entrevista Joel Lopes Reis partilhou o seu lema de vida e deixou sugestões a outros jovens.

“Há uma ideologia que me tem marcado ao longo dos últimos anos. Dei explicações a alguns miúdos e penso que lhes falta acreditarem que são capazes de atingir determinados objectivos como outra pessoa qualquer. Os casos de verdadeiras deficiências intelectuais são raros. Contudo muitas vezes os preconceitos são despejados gratuitamente e nem sempre inconscientemente sobre algumas franjas da sociedade fazem crer que uns nascem mais iluminados que outros. “Não deixes que o lugar de onde vens te impeça de ir para onde queres”. Na minha opinião uma sociedade igualitária não é aquela que transforma todos em médicos ou leva todos os seus cidadãos à Lua, mas é aquela que torna a linha de partida mais justa para todos. Eu posso sempre decidir não correr, mas essa deve ser uma escolha minha e não uma imposição causada pelas adversidades externas. A Fundação Rotária tem um papel importante porque faz um esforço para diminuir as desvantagens de quem quer enveredar por esta corrida e premeia aqueles que têm a coragem e a perseverança para se manterem em competição.
Agradeço sinceramente a todos aqueles que sempre fizeram com que eu acreditasse que seria capaz de chegar onde queria. Para os outros, o meu obrigado também porque só me deu ainda mais vontade de correr”.